Vamos lá, resumirei o que guardo na memória, numa caixinha onde está escrito “Crises”:
1. Getúlio, 1954
Estávamos no final de 1954. Era uma dia qualquer e eu, garoto de cinco anos, vagueava em casa, pois só começaria a frequentar a escola de alfabetização aos seis.
Lembro-me bem de quando o rádio, que “Seu” Dantas, meu pai, mantinha sempre ligado, interrompeu a programação com a inconfundível chamada do REPÓRTER ESSO (àquela época não tínhamos TV). Era uma edição extraordinária, por volta das dez horas da manhã.
O presidente Getúlio Vargas havia cometido suicídio.
Vargas era um líder político de enorme apelo popular, amado por milhões de brasileiros, que o chamavam de “pai dos pobres”. Seu governo criou ou consolidou algumas das instituições que moldariam o Brasil moderno: legislação trabalhista, salário mínimo, jornada de oito horas, férias remuneradas, Ministério do Trabalho, Companhia Siderúrgica Nacional, Vale do Rio Doce, Petrobras e BNDES.
Getúlio não “criou” sozinho o Brasil moderno, é claro. Mas poucos homens imprimiram marca tão profunda à arquitetura econômica, social e institucional desse país.
Em agosto de 1954, uma grave crise político-militar caminhava para afastá-lo do poder. Acuado, Vargas fez aquilo que talvez nenhum de seus adversários previsse: transformou a própria morte em seu último e mais poderoso ato político. Na hoje célebre Carta-Testamento escreveu: “Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História.”
Foi uma extraordinária profecia política. Sua morte provocou uma comoção nacional, multidões foram às ruas e seus adversários recuaram. Mas a guerra civil que ele imaginou que surgiria não se materializou. Mesmo assim, Vargas entrou, de fato, para a História.
Mas não resolveu as contradições do país. Nos anos seguintes vieram, com força, inflação, conflitos trabalhistas, radicalização ideológica, instabilidade institucional e violentas disputas entre as forças políticas de então.
Em casa, o clima naquele dia ficou sinistro. Nunca o esqueci, sobretudo porque, na hora do almoço, foi a única vez em toda a minha infância que vi “Seu” Dantas chorar.
Começava ali, sem que aquele menino de cinco anos pudesse compreender, uma longa década de instabilidade que desembocaria em outra rutura.
2. 1964
Dez anos depois eu morava em Fortaleza e fazia cursinho pré-vestibular para Medicina. Foi quando ouvi de meu tio Gaudencio, comerciante, uma expressão que começava a atormentar todas as famílias brasileiras: “o aumento do custo de vida”. A inflação tornara-se alarmante. O país parecia de pernas para o ar.
A Guerra Fria havia chegado com força à América Latina. A Revolução Cubana incendiara o imaginário das esquerdas, enquanto os Estados Unidos, temendo a expansão soviética no continente, apoiavam forças anticomunistas. No Brasil, movimentos de esquerda defendiam reformas profundas, alguns deles a própria revolução; à direita, militares, empresários, setores da imprensa, da Igreja e das classes médias temiam que o país caminhasse para o comunismo.
João Goulart, um homem fraco para aquele momento tão duro, que assumira a Presidência depois da inacreditável renúncia de Jânio Quadros, tentava governar naquele caldeirão. Não conseguiu.
Vieram a crise, a ruptura institucional e o golpe militar de 1964.
E sobre o país desceu uma longa noite.
3. Petróleo, ditaduras e medo
Em 1974 eu morava no Rio de Janeiro e fazia residência em Radiologia quando os efeitos da grande crise internacional do petróleo chegaram com força ao Brasil.
A inflação voltou à mesa do almoço das famílias. O chamado “milagre econômico” começava a apresentar sua conta, agravada pela dependência brasileira do petróleo importado e pelo crescente endividamento externo.
A ditadura ainda governava o Brasil, mas viu-se forçada a começar, lentamente, a preparar sua abertura. Alem disso, o protecionismo militarista da pálida industria
nacional incomodava as empresas americanas.
Em boa parte da América Latina, porém, a Guerra Fria adquirira contornos brutais. Guerrilhas e movimentos revolucionários de esquerda enfrentavam Estados autoritários; golpes militares se espalhavam pelo continente, e os Estados Unidos apoiavam diversos regimes e operações anticomunistas.
Prisões, torturas, desaparecimentos, exílios e medo tornaram-se parte da paisagem política latino-americana.
Ao final da década de 1970, sobre boa parte do continente parecia estender-se uma espécie de “pax sepulcralis” (expressão que acabo de criar): uma paz de cemitério, a aparente tranquilidade produzida não pela conciliação dos antagonismos, mas pela repressão e pelo esmagamento de grande parte das organizações revolucionárias.
4. A dívida externa e a década perdida
Então veio o início dos anos 1980.
A elevação brutal dos juros internacionais, o segundo choque do petróleo e o enorme endividamento externo atingiram o Brasil em cheio. Em 1982, a crise da dívida latino-americana explodiu.
O regime militar, já desgastado política e economicamente, caminhava para o fim. A inflação acelerava, a dívida pesava, o crescimento desapareceu.
A democracia voltou em 1985, mas herdou uma economia ingovernável.
Vieram Sarney e o que havia de pior na elite politica do país, se entronizou no poder e cravou suas presas ávidas nas veias daquela nação já tão sofrida. Em menos de 10 anos tivemos 3 moedas diferentes, com planos econômicos sucessivos, congelamentos de preços e uma inflação que aos poucos abandonou qualquer escala compreensível. O brasileiro passou a receber o salário e correr ao supermercado antes que o dinheiro perdesse valor.
Em 1987, o Brasil suspendeu o pagamentos dos juros da dívida externa. No final da década, a inflação já caminhava para a hiperinflação.
E, quando imaginávamos que o fundo do poço estivesse próximo, apareceu Fernando Collor, mais um sociopata a guiar nossos destinos.
O confisco da poupança, a recessão e a instabilidade política completaram aquele período quase surreal. Naqueles tempos, o Brasil tornou-se um país no qual ninguém, nem mesmo os brasileiros, acreditava.
5. O Plano Real e a reconstrução
Depois de tantos fracassos, surgiu finalmente, em 1994, o Plano Real.
Ao contrário dos planos anteriores, aquele plano não se limitou a congelar preços ou trocar o nome da moeda. Atacou o mecanismo que alimentava a inflação, criou primeiro a URV como unidade de referência e, depois, introduziu o real.
A receita funcionou. A inflação despencou, o dinheiro recuperou sua função, os salários deixaram de evaporar entre o pagamento e o supermercado, e o país voltou a planejar o futuro.
Mas a estabilização teve custos e fragilidades: juros muito elevados, dependência de capital externo, câmbio valorizado e sucessivas crises internacionais. México, Ásia e Rússia foram abalando nosso edifício.
Em janeiro de 1999, o regime cambial brasileiro finalmente cedeu e o real sofreu forte desvalorização.
Para mim, aquilo não foi apenas uma notícia de jornal.
Eu estava endividado em dólar: havia terminado de adquirir, por um milhão de dólares, a primeira ressonância do Piauí e do Maranhão. Um dólar custava, em 1998, um real. Em 2001 custava dois reais. Em 2002 custava quarto reais.
E eu quebrei. Foi tenebroso. Até meu carro vendi, tomei dinheiro emprestado em bancos. Edson Bueno, um grande amigo, me emprestou 1 milhão de reais, que só paguei 2 anos depois. Sem juros.
Há uma grande diferença entre estudar uma crise econômica e acordar dentro dela: dólar e juros explodiram, dívidas cresceram de uma hora para outra e aprendi, de maneira dolorosa, que risco cambial não é uma abstração escrita nos livros de Economia.
Os anos seguintes trouxeram novas turbulências, inclusive a enorme incerteza de 2002, quando a eleição presidencial levou o dólar e o risco-Brasil às alturas.
Depois, o país voltou a respirar.
Até que, em 2008, veio de fora a maior crise financeira internacional desde 1929. Bancos gigantescos quebraram, o crédito mundial congelou e, por algumas semanas, parecia possível assistir ao colapso do próprio sistema financeiro internacional.
Sobrevivemos também àquela.
Entre 2014 e 2016, entretanto, a crise voltou a nascer dentro de casa: deterioração fiscal, recessão profunda, desemprego, perda de confiança e uma crise política devastadora. Ainda guardo na memória aquele sofrimento.
E então, quando eu imagina já ter visto de tudo, veio a pandemia.
O mundo parou.
Governos gastaram quantias colossais para impedir o colapso econômico, bancos centrais inundaram o planeta de liquidez, cadeias produtivas foram interrompidas e, depois, a inflação reapareceu em grande parte do mundo. Para combatê-la, vieram novamente os juros altos.
E chegamos ao presente.
6. E agora?
Quando olho para todas essas crises que atravessei, encontro diferenças enormes entre elas. Mas também reconheço alguns fantasmas familiares: desequilíbrios fiscais, endividamento crescente, juros elevados, perda de confiança, expectativas ruins e sociedades politicamente polarizadas.
Todos esses problemas estão hoje aqui no Brasil. Assim como, também, nas grandes economias mundiais.
E isso me inquieta.
O Brasil carrega dívida pública elevada, déficits persistentes, corrupção epidêmica, instituições com a credibilidade aniquilada, juros muito altos e o crime organizado a cada dia mais poderoso. O crescimento continua vulnerável e a confiança no futuro oscila ao sabor da política e das contas públicas.
Olho para tudo isso e me faço uma pergunta muito pessoal: o que o futuro reserva para as esperanças, o trabalho e os sacrifícios que acumulei durante uma vida inteira para construir algo melhor para aqueles que virão depois de mim?
Às vezes olho para minhas empresas e investimentos e imagino tudo isso embarcado num enorme transatlântico navegando por águas cada vez mais agitadas. Seria fácil chamá-lo de Titanic. Mas existe uma diferença importante. Sei que existem icebergs. Eu já vi vários deles ao longo dessas quase oito décadas. Vi governos caírem, moedas desaparecerem, inflação devorar salários, empresas quebrarem, ditaduras nascerem e morrerem, o petróleo explodir, o dólar disparar, bancos gigantes sumirem e até o mundo inteiro fechar suas portas por causa de um vírus. E aqui estamos.
Talvez seja essa a principal lição que quero tão duramente aprendi: crises passam. Países erram. Governos fracassam. Fortunas desaparecem e outras são construídas. Nenhuma prosperidade é eterna, mas nenhuma tempestade também é.
Por isso continuo preocupado. Mas continuo otimista.
Não aquele otimismo ingênuo de quem acredita que nada dará errado. Aos 77 anos já vivi demais para acreditar nisso.
Meu otimismo é outro: é o de quem já viu muitas tempestades e aprendeu que, quando sabemos onde estão os icebergs, reduzimos a velocidade, reforçamos o casco, escolhemos melhor a rota e, sobretudo, não abandonamos o leme. Não vou fazer como muitos, que estão fugindo para outros países, com suas economias. Aqui é nosso lugar e sempre será. Fora do Brasil seremos párias, navegando entre a intolerância, a perseguição e o desprezo.
Portanto, se abrace ao trabalho, com afinco. Só ele salva.
“Pois navegar é preciso. Viver não é preciso” (Pompeu Magno, 48 aC).
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07/10/2026
A conclusão do seu exame de ultra-sonografia pélvica descreve um mioma na parte externa do útero. Não se preocupe com isso. Afinal, 4 em cada 10 mulheres têm ou terão, durante suas vidas, um ou mais miomas uterinos.
Mas existe outro achado que, esse sim, merece atenção e investigação. Trata-se do “apagamento e retração das estruturas que se situam por destrás do útero, apresentando contato com o intestino”. Essas alterações são muito encontradas na ENDOMETRIOSE PROFUNDA. Agora você precisa levar esse resultado para sua ginecologista. Ou então agendar consulta com ginecologista especializada em endometriose.
É muito provável que você deva fazer uma ressonância magnética da pelve, para definir melhor a gravidade da endometriose.
O histopatológico de biópsia do colo do útero é o exame em que um médico patologista analisa no microscópio um pequeno fragmento retirado do colo uterino.
Esse estudo pode mostrar inflamação, lesões associadas ao HPV ou cancer invasivo.
Se a sua dúvida é sobre um resultado de histopatologico do colo uterino, envie uma foto do laudo histopatológico ou copie o texto e mande para mim.
No Medclub há ginecologistas que tratam endometriose. Ligue ou mande mensagem para o WhatApp do Medclub (3131.1881): as operadoras esclarecerão suas duvidas e agendarão sua consulta.
05/10/2026
Você é portador(a) de um pequeno tumor benigno, muito comum, localizado embaixo da pele. Ele não causa sintomas e é formado por gordura. Sua retirada cirúrgica é muito simples, feita por dermatologista ou por cirurgião geral, com anestesia local.
Sou muito fraco no diagnostico das doenças da pele, principalmente quando analiso fotografias de lesões. Pela medicação que seu dermatologista indicou sua lesão é uma micose de pele. O tratamento das micoses de pele é feito com associação de griseofulvina e ICADEN, durante um longo período.
Mas há duas questões que você com o dermatologista:
1.A dose da griseofulvina está alta. Por isso lhe aconselho a realizar exames de laboratorio para controle de função hepática, renal e hemograma.
2.Colecalciferol 50.000 UI também uma dose alta, que pode causar hipercalcemia e toxicidade. Tome 1 dose de 50.000 UI por semana, durante 2 meses e depois faça novamente um exame de laboratorio para dosar de novo sua vitamina D.
Uma dor no punho que existe há três anos, após um acidente de moto, precisa ser muito bem avaliada. Mesmo que seja leve. Algumas lesões do punho podem não ser vistas no atendimento inicial e tornar-se crônicas.
As principais causas para essa queixa são:
1.lesão ligamentar (especialmente do ligamento escafolunar),
2.lesão da fibrocartilagem triangular (TFCC),
3.fratura do escafoide,
4.artrose pós-traumática,
5.tendinopatia.
Você precisa agendar consulta com ortopedista especialista em mão e punho. E dependendo do exame físico, pode ser necessária ressonância magnética ou tomografia do punho
Pelos valores que você informou, não há indicação de repor ferro, vitamina B12 ou vitamina D por conta própria.
-Ferritina 61 ng/mL: em princípio, não sugere deficiência importante de ferro.
-Vitamina B12 436 pg/mL: valor geralmente adequado.
-Vitamina D 90 ng/mL: está alta, não baixa.
O ponto principal é outro: fraqueza, sensação de peso, cansaço há meses e dores nas pernas à noite merecem investigação além das vitaminas.
A dor predominantemente noturna merece uma avaliação melhor. Se for uma inquietação/desconforto que obriga a mexer as pernas e melhora ao caminhar, lembra síndrome das pernas inquietas. Se forem cãibras, o caminho é outro. Se houver dor muscular verdadeira, fraqueza para subir escadas ou levantar-se de uma cadeira, formigamento ou dor irradiada da coluna, muda novamente a investigação.
Eu não atribuiria esses sintomas simplesmente à falta de vitaminas, especialmente com esses três resultados.
O mais prudente será agendar consulta com um clínico geral competente, ou com um endocrinologista. Você mora em Teresina? Posso indicar-lhe um médico competente para avaliar seu caso.
Sim. Se o dente estiver muito comprometido e o dentista concluir que precisa ser extraído, você pode fazer a extração mesmo estando amamentando.
A anestesia local normalmente utilizada pelo dentista, inclusive lidocaína, é compatível com a amamentação. Em geral, não é necessário suspender as mamadas nem retirar e descartar o leite depois da anestesia.
Portanto, não deixe de tratar ou extrair o dente por causa da amamentação. Avise ao dentista que amamenta e a idade do bebê para que ele escolha anestésico e medicamentos adequados
70.037.088
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